Dez 17, 2017 12/17/17
A Última Aula
Weber Figueiredo fala sobre a construção do Brasil
A Última Aula Renzo Grosso
Renzo Grosso on terça, novembro 14, 2017
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O professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro,  Weber Figueiredo, deu uma última aula para seus ex-alunos.  Diante de uma platéia  de formandos, acompanhados de seus pais, o professor paraninfo da turma  discursou sobre o Brasil.
A aula dada no dia 13 de agosto de 2003, no  auditório da Uerj, está sendo repassada pela Internet para engenheiros e  estudantes por causa de sua qualidade.


Ilustríssimos Colegas da Mesa, Senhor  Presidente, meus queridos Alunos, Senhoras e Senhores.

Para mim é um  privilégio ter sido escolhido paraninfo desta turma.

Esta é como se fôra  a última aula do curso. O último encontro, que já deixa saudades. Um  momento festivo, mas também de reflexão.

Se eu fosse escolhido paraninfo  de uma turma de direito, talvez eu falasse da importância do  advogado que defende a justiça e não apenas o réu.
Se eu  fosse escolhido paraninfo de uma turma de medicina, talvez eu falasse da  importância do médico que coloca o amor ao próximo acima dos seus lucros  profissionais.

Mas, como sou paraninfo de uma turma de engenheiros, vou  falar da importância do engenheiro para o desenvolvimento do  Brasil.


Para começar, vamos falar de bananas e do doce de banana,  que eu vou chamar de bananada especial, inventada (ou projetada) pela  nossa vovozinha, depois que várias receitas prontas não  deram certo. É isso mesmo. Para entendermos a importância do  engenheiro vamos falar de bananas, bananadas e vovó.


A  banana é um recurso natural, que não sofreu nenhuma transformação.
A  bananada é igual a banana mais outros ingredientes mais a energia térmica fornecida  pelo fogão mais o trabalho da vovó e mais o conhecimento, ou tecnologia da  vovó. A bananada é um produto pronto, que eu vou chamar de riqueza.

E a  vovó?
Bem a vovó é a dona do conhecimento, uma espécie de  engenheira da culinária. Agora, vamos supor que a banana e a bananada  sejam vendidas. Um quilo de banana custa um real. Já um quilo da  bananada custa cinco reais.
Por que essa diferença de  preços? Porque quando nós colhemos um cacho de bananas na bananeira,  criamos apenas um emprego: o de colhedor de  bananas. Agora, quando a vovó, ou a indústria, faz a bananada,  ela cria empregos na indústria do açúcar, da canas-de-açúcar, do gás  de cozinha, na indústria de fogões, de panelas, de colheres e até  na de embalagens, porque tudo isto é necessário para se fabricar  bananada.

Resumindo, 1kg de bananada é mais caro do que 1kg de  banana porque a bananada é igual banana mais tecnologia agregada, e a  sua fabricação criou mais empregos do que simplesmente colher o cacho  de bananas da bananeira.


Agora vamos falar de outro  exemplo que acontece no dia-a-dia no comércio mundial de mercadorias.

Em  média: 1kg de soja custa US$ 0,10 (dez centavos de dólar), 1kg de  automóvel custa US$ 10, isto é, 100 vezes mais, 1kg de aparelho  eletrônico custa US$ 100, 1kg de avião custa US$1.000 (10 mil quilos de  soja) e 1kg de satélite custa US$ 50.000. Vejam, quanto mais tecnologia  agregada tem um produto, maior é o seu preço, mais empregos foram gerados  na sua fabricação. Os países ricos sabem disso muito bem. Eles  investem na pesquisa científica e tecnológica.

 Por exemplo: eles nos  vendem uma placa de computador que pesa 100g por US$ 250. Para pagarmos  esta plaqueta eletrônica, o Brasil precisa exportar 20 toneladas de  minério de ferro.

A fabricação de placas de computador criou milhares de  bons empregos lá no estrangeiro, enquanto que a extração do  minério de ferro, cria pouquíssimos e péssimos empregos aqui no  Brasil.
O Japão é pobre em recursos naturais, mas é um país rico. Brasil é rico em energia e recursos naturais, mas é um país  pobre. Os países ricos são ricos materialmente porque eles  produzem riquezas. Riqueza vem de rico. Pobreza vem de  pobre. País pobre é aquele que não consegue produzir riquezas para o seu  povo. Se conseguisse, não seria pobre, seria país rico.


Gostaria  de deixar bem claro três coisas:
1º) quando me refiro à palavra riqueza,  não estou me referindo a jóias nem a supérfluos. Estou me referindo  àqueles bens necessários para que o ser humano viva com um mínimo de  dignidade e conforto;
2º) não estou defendendo o consumismo materialista  como uma forma de vida, muito pelo contrário; e
3º) acho  abominável aqueles que colocam os valores das riquezas materiais acima  dos valores da riqueza interior do ser humano.


Existem nações que são  ricas, mas que agem de forma extremamente pobre e desumana em relação a  outros povos.

Creio que agora posso falar do ponto principal. 

Para que o nosso Brasil torne-se um País rico, com o seu povo vivendo com  dignidade, temos que produzir mais riquezas. Para tal, precisamos de  conhecimento, ou tecnologia, já que temos abundância de recursos naturais  e energia.
E quem desenvolve tecnologias são os cientistas e os  engenheiros, como estes jovens que estão se formando hoje.

Infelizmente, o Brasil é muito dependente da tecnologia externa. Quando  fabricamos bens com alta tecnologia, fazemos apenas a parte final da  produção. Por exemplo: o Brasil produz 5 milhões de televisores por ano e  nenhum brasileiro projeta televisor. O miolo da TV, do telefone celular e  de todos os aparelhos eletrônicos, é todo importado. Somos meros  montadores de kits eletrônicos. Casos semelhantes também acontecem na  indústria mecânica, de remédios e, incrível, até na de  alimentos.


O Brasil entra com a mão-de-obra barata e os recursos  naturais. Os projetos, a tecnologia, o chamado pulo do gato, ficam no  estrangeiro, com os verdadeiros donos do negócio. Resta ao Brasil lidar  com as chamadas caixas pretas. É importante compreendermos que os donos  dos projetos tecnológicos são os donos das decisões econômicas, são  os donos do dinheiro, são os donos das riquezas do mundo. Assim  como as águas dos rios correm para o mar, as riquezas do mundo  correm em direção aos países detentores das tecnologias  avançadas.
A dependência científica e tecnológica acarretou para nós  brasileiros a dependência econômica, política e cultural. Não podemos  admitir a continuação da situação esdrúxula, onde 70% do PIB brasileiro é controlado por não residentes.
Ninguém pode progredir  entregando o seu talão de cheques e a chave de sua casa para o vizinho  fazer o que bem entender.
Eu tenho a convicção que  desenvolvimento científico e tecnológico aqui no Brasil garantirá aos  brasileiros a soberania das decisões econômicas, políticas e culturais.  Garantirá trocas mais justas no comércio  exterior. Garantirá a criação de mais e melhores empregos. E, se  toda a produção de riquezas for bem distribuída, teremos a  erradicação dos graves problemas sociais.
O curso de  engenharia da UERJ, com todas as suas possíveis deficiências, visa a  formar engenheiros capazes de desenvolver tecnologias. É o chamado  engenheiro de concepção, ou engenheiro de projetos. Infelizmente, o  mercado desnacionalizado nem sempre aproveita todo este potencial  científico dos nossos engenheiros. Nós, professores, não podemos nos  curvar às deformações do mercado. Temos que continuar formando  engenheiros com conhecimentos iguais aos melhores do mundo. Eu posso  garantir a todos os presentes, principalmente aos pais, que qualquer um  destes formandos é tão ou mais inteligente do que qualquer engenheiro  americano, japonês ou alemão. Os meus trinta anos de magistério, lecionando desde o antigo ginásio até a universidade, me dá autoridade  para afirmar que o brasileiro não é inferior a ninguém, pelo contrário,  dizem até que somos muito mais criativos do que os habitantes do chamado  primeiro mundo.
O que me revolta, como professor cidadão, é ver que as decisões políticas tomadas por pessoas despreparadas ou  corruptas são responsáveis pela queima e destruição de inteligências  brasileiras que poderiam, com o conhecimento apropriado, transformar o  nosso Brasil num país florescente, próspero e socialmente  justo. Acredito que o mundo ideal seja aquele totalmente  globalizado, mas uma globalização que inclua a democratização das  decisões e a distribuição justa do trabalho e das riquezas. Infelizmente, isto ainda está longe de acontecer, até por limitações físicas  da própria natureza. Assim, quem pensa que a solução para os  nossos problemas virá lá de fora, está muito enganado. O dia que  um presidente da República, ao invés de ficar passeando como um  dândi pelos palácios do primeiro mundo, resolver liderar um  autêntico projeto de desenvolvimento nacional, certamente o Brasil vai  precisar, em todas as áreas, de pessoas bem preparadas. Só assim  seremos capazes de caminhar com autonomia e tomar decisões que  beneficiem verdadeiramente a sociedade brasileira. Será a construção de  um Brasil realmente moderno, mais justo, inserido de forma soberana  na economia mundial e não como um reles fornecedor de recursos naturais mão-de-obra aviltada.
Quando isto ocorrer, e eu espero  que seja em breve, o nosso País poderá aproveitar de forma muito mais  eficaz a inteligência e o preparo intelectual dos brasileiros e, em  particular, de todos vocês, meus queridos alunos, porque vocês já foram  testados e aprovados.


Finalmente, gostaria de parabenizar a todos os pais  pela contribuição positiva que deram à nossa sociedade possibilitando a  formação dos seus filhos no curso de engenharia da UERJ.

A alegria dos  senhores, também é a nossa alegria.


Muito  Obrigado.


           
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